segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Revolta de Juazeiro.

Grupo: João Santos, Rosana Maria dos Santos, Taciana Prieto Barreto, Thiago da Silva Paz e Volnei de Barros Neto.



INTRODUÇÃO
            Este trabalho tem como objetivo a análise das causas da Sedição de Juazeiro, bem como a caracterização da figura mística do Padre Cícero, e o messianismo impregnado na região do Juazeiro, ressaltando-se nesse contexto messiânico o beato José Lourenço e o movimento do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, também de caráter messiânico. No entanto, é de fundamental importância uma explanação prévia do conceito de Coronelismo para que haja um melhor entendimento dos meandros políticos, econômicos e sociais da Primeira República brasileira, e o posterior levantamento de questões pertinentes à Sedição de Juazeiro.
            Para a elaboração do presente trabalho foi necessário recorrer a um considerável número de bibliografias referentes ao tema. Além disso, foi possível fazer uma análise historiográfica mais aprofundada e levantando-se questões que serão abordadas no processo de fechamento do trabalho, baseando-se, entre outras obras, no livro Cangaceiros e Fanáticos, do historiador Rui Facó.
            Para entender as causas da Sedição de Juazeiro é preciso levar em consideração, inicialmente, a luta das oligarquias pela conquista do poder político. Os estados de São Paulo e Minas Gerais, em 1910, romperam com a até então política do café com leite, que consistia na eleição de candidatos à presidência, sendo eles paulistas ou mineiros. Essa política foi quebrada porque os dois estados não chegaram a um acordo sobre a sucessão imperial. Após esse quadro inicial, é possível explanar o tema, que será feito adiante.


Discussão conceitual acerca do coronelismo, mandonismo e clientelismo
            É comum na literatura brasileira o uso equivocado do conceito de coronelismo, tendo, na maioria das vezes, se identificado a uma imagem do coronel como grande latifundiário. No entanto, vários tipos de coronéis existiram: desde esses fazendeiros de grandes propriedades de terras, até comerciantes, médicos e até padres. É nesse contexto que se é necessário estabelecer limites entre o conceito de coronelismo, que será bastante útil no fechamento deste trabalho, ao constatar que Padre Cícero foi, de fato, um grande coronel, e não somente um padre.
            O Coronelismo segundo Victor Nunes Leal (1948) procura examinar, sobretudo o sistema político, a estrutura e a maneira pelas quais as relações de poder se desenvolviam na Primeira República, a partir do município. Ele é datado historicamente, e nasce na confluência de um fato político com uma conjuntura econômica, ou seja, o fato econômico em questão é o federalismo e a conjuntura econômica seria a decadência econômica dos fazendeiros.
            O federalismo cria o governador de estado – chefe da política estadual - que detém amplos poderes e era eleito pelos partidos únicos estaduais, e ao seu redor se arregimentavam as oligarquias locais, sendo os coronéis seus principais representantes. Já a decadência econômica dos fazendeiros acarretava o enfraquecimento do poder político dos coronéis, passando a exigir a presença do estado, que expandia a sua influência e diminuía a dos donos de terra.
            Desta forma, o coronelismo é um sistema político nacional baseado na relação entre o governo e os coronéis: o poder dos coronéis – controle dos cargos públicos - é garantido pelo governo estadual, e os coronéis dão seu apoio ao governo na maioria das vezes em forma de voto.
            Já comparando o coronelismo ao mandonismo, o cientista político José Murilo de Carvalho acredita que este último não é um sistema, e sim uma característica da política tradicional, existindo desde a colonização do Brasil e sobrevivendo até os dias de hoje. No entanto, a tendência é que o mandonismo desapareça à medida que os direitos civis e políticos alcancem todos os cidadãos (CARVALHO, 1997).
O coronelismo seria um momento particular do mandonismo, em que os mandões começam a perder força e tem de recorrer ao governo.
            O conceito de clientelismo também é recorrentemente confundido com o de coronelismo, no entanto este primeiro é um fenômeno muito mais amplo. “O clientelismo indica um tipo de relação entre atores políticos que envolve concessões de benefícios públicos, na forma de empregos, benefícios fiscais, isenções em troca de apoio político, sobretudo na forma de voto” (CARVALHO, 1997).
            Ao contrário do coronelismo, que teve data determinada – 1889 até 1937, quando foram derrubados os grandes caudilhos gaúchos, no Estado Novo – para acabar, e o mandonismo, que tende a decrescer, o clientelismo perpassa toda a história política do país. Além disso, segundo José Murilo de Carvalho, é possível que o clientelismo tenha se ampliado com o fim do coronelismo e aumentado com o decréscimo do mandonismo.

Padre Cícero
O fanatismo religioso, como o cangaceirismo, perdurou por décadas nos sertões, sobretudo no nordeste, e atingiu a sua fase mais aguda entre o fim do século XIX e o inicio do século XX.  O Cangaço, como forma primária de luta provocada, em parte, pelos desajustes sociais nascidos do monopólio da terra, cujas origens remontam aos tempos coloniais, com a divisão do Brasil em capitanias hereditárias e a subsequente concessão das sesmarias, as quais deram origem aos latifúndios.
Desse modo, o fanatismo religioso surge como uma procura do sobrenatural para a solução de todos os males e dramas da sociedade.
Episódios como os de Canudos, Caldeirão, Contestado, Pau de Colher, Pedra Bonita e Juazeiro foram as chagas maiores, superações de um organismo social doente. O mal vem de longe. Vem do abandono de toda uma legião de párias, de injustiçados pelas condições de vida do campo. Se o cangaceirismo foi uma maneira inconseqüente de protesto contra alguma coisa que estava errada, o fanatismo ainda é uma escapatória aos padecimentos crônicos (CARNEIRO, 2007, p.9-10).
Mas, embora sendo movimentos que tenham em comum a luta contra a exploração do homem pelo homem, existem algumas particularidades em cada um desses movimentos, como por exemplo, os “fanáticos” de Canudos eram, religiosamente, os mesmos fanatismos de Juazeiro. Entretanto, o comportamento foi oposto, existia uma distância muito grande entre as figuras de Antônio Conselheiro e Padre Cícero. Antônio Conselheiro era o “espelho” do seu próprio povo, humilde e desvalido como os que estavam com ele. Antônio Conselheiro foi um mal que precisava ser destruído, segundo a opinião dos governantes da época. Padre Cícero foi um “mal” bem útil para os senhores de terra. Ao governo interessou acabar com Canudos. Enquanto que, a antiga política utilizou-se do de Juazeiro, deu-lhe força, incentivo. Antônio Conselheiro representava a figura do inconformado, um revoltado em potencial; padre Cícero, um representante do conformismo, facilmente manobrável e até mesmo útil e necessário.
Padre Cícero Romão Batista nasceu no dia vinte e quatro de março de 1844, na vila do Crato, Ceará. Filho de Joaquim Romão Batista e de Joaquina Vicência Romana. O Pai comerciante tentou de várias formas encaminhar o filho para os negócios da família. Mas Cícero desde cedo mostrava interesses pela vida religiosa. Então, sei pai resolveu não contrariá-lo, e Cícero seguiu sua vocação.
Ele fez seus estudos primários na vila onde nasceu, depois transferiu-se para o colégio do Padre Rolim, em Cajaseiras, na Paraíba. Aos vinte e dois anos de idade, transferiu-se para o seminário maior e ordenou-se padre no dia trinta de novembro de 1870.
Segundo o escritor Caio Porfírio, durante o período de seminário, Cícero Romão não foi um aluno brilhante, passou despercebido, mas já apresentava um exagerado fervor religioso, que chamava a atenção de todos, ao ponto do reitor Padre Chevalier, não ver com bons olhos a sua ordenação.
Quando, ordenado, vai para as vilas de Trairi e São Pedro no Ceará. Posteriormente, quis retornar à sua terra natal. Locomovia-se de um lugar para outro, fazia visitas aos doentes, consultava remédio aos necessitados, intervia em casos jurídicos e conselhos espirituais.
Mas um acontecimento extraordinário aos olhos dos religiosos mudará a trajetória do Padre Cícero. O caso aconteceu no dia seis de março de 1889. A beata Maria Araujo, ao comungar na missa Celebrada pelo Padre Cícero, sentiu a boca cheia de Sangue. A notícia correu como um rastilho. Sempre que a beata recebia a hóstia das mãos do Padre, as Romarias a juazeiro partiam em levas para vê o fenômeno. Vinham dos mais distantes lugares, de Alagoas, Sergipe, Pernambuco (CARNEIRO, 2007).
A beata era uma mestiça de 29 anos, com cabelos carapinha, que usa cortado baixinho, de estatura média, um pouco delgada e tem cabeça pequena e arredondada, olhos escuros, quase negros e suaves na expressão, lábios um pouco grossos, nariz pequeno, faces um pouco salientes, queixo curto e pescoço bem proporcionado. Veste Roupa preta, conservando a cabeça coberta, com o aspecto fisionômico e geral de uma pessoa simples (MOREL, 1966, p.6)
Diante das controversas do Milagre, o Clero envia dois médicos a Juazeiro para examinarem de perto o caso, depois de analisarem confirma a existência do milagre. Porém a Igreja não aceita o laudo do doutor Marcos Rodrigues Madeira, e envia outro médio a região, o doutor Ildefonso Correa Lima, que também confirma a existência do milagre. Inconformado, o Clero envia a Fortaleza o doutor Júlio César da Fonseca que discorda dos outros dois diagnósticos: “o fenômeno que produz na dita beata não é novo, nem surpreendente, É tão natural como qualquer dos que a cada momento, caem no domínio dos nossos sentidos.” (CARNEIRO, 2007, p.22).
Diante das controversas vem a punição. Para a Igreja, o milagre era a negação da eucaristia. Dom Joaquim José Vieira, depois de ouvir a comissão que o mesmo nomeou para estuda o caso, nega a ocorrência do milagre. Diante da situação D. Joaquim ordena a Padre Cícero que se retrate do púlpito. O Padre sente-se perseguido, porém permanece no Juazeiro até Roma julgar o seu caso. No dia quatro de abril a Santa Sé dá ganho de causa a D. Joaquim, e padre Cícero Romão deixa Juazeiro, sob pena de excomunhão.
No exílio Cícero Romão Batista vai para Salgueiro, Pernambuco, onde exerce durante algum tempo sua função de clérigo de aldeia. A vigilância sobre ele continua intensa. Levantam-se suspeitas de uma possível ligação entre Cícero e Antonio Conselheiro, mas logo as suspeitas têm fim.
Em 1897 Cícero Romão volta a Juazeiro, onde procura a ajuda de amigos com intuito de arrecadar recursos para ir a Roma. Em Roma, passa alguns meses para ser recebido pelo papa Leão XIII que lhe absolve no Supremo tribunal.
Ao retornar a Juazeiro Cícero Romão percebe que seus milagres já são coisas do passado, pois poucos eram os que se lembravam do ocorrido. O seu prestigio de “santo” e “protetor das almas” havia passado.

O Pacto com os Coronéis
Cícero Romão entra na política por incentivo de Floro Bartolomeu, médico desconhecido até então, vindo da Bahia, fazendo em pouco tempo amizade com o padre. Em 1911 Cícero promove uma reunião com os coronéis do Cariri, visando “pacificar” a região. Ele propõe aos coronéis um “pacto de paz”, pretendendo com isso por fim as contendas políticas, que ocasionavam lutas pelo poder e consequentemente mortes. “Uma fantasia de tal o “pacto de paz”, porquanto todos os caciques reunidos em “assembléias” eram mandantes de muitos crimes e lideravam grupos de jagunços, que se refugiavam em seus feudos. O “pacto” ficaria como ficou, no papel “(CARNEIO, 2007, p.28).
A unidade do coronelismo girava em torno Antônio Pinto Nogueira Acioli, que governou o estado, como mãos de ferro, durante muitos anos. Acioli era de uma família numerosa, em que todos exerciam algum cargo de destaque.  O aciolismo, como ficou conhecido o seu governo, mandou e desmandou durante este período.  A população de Fortaleza não suportando mais os seus desmandos, fez uma “revolução popular”, que tomou conta da capital e Acioli muda-se para sul com a sua família. Com a saída de Acioli no poder, assume o cargo o Coronel Franco Rabelo, que adotou medidas rígidas para reorganizar administrativamente o estado.  A primeira medida de Acioli foi acabar com o banditismo que “infestava” o interior, enfrentar os “coronéis” que sempre foram o esteio da velha oligarquia. Estes cercados de jagunços, fizeram de tudo para depor Franco Rabelo.
Sedição de Juazeiro – A Revolta
Antes de analisar como se deu a Sedição de Juazeiro, é necessário localizar geograficamente a cidade de Juazeiro, encravada na região do Cariri, bem como mostrar que a mesma tinha viés propício a posturas revolucionárias.
Localizada no extremo sul do Ceará, o Cariri encontra-se entre os Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e até mesmo o Piauí.
Esta região possuía o desejo de se tornar uma província independente, isto pelo fato de ter uma boa posição geográfica e uma economia relativamente desenvolvida, porém sem uma contrapartida do estado. Toda região do cariri possuía uma forte ligação com Pernambuco e participação em movimentos revolucionários, como na Revolução de 1817 e na Confederação do Equador. Essa participação do Cariri nesses movimentos se deveu ao adensamento de imigrantes na região, a relação com Pernambuco cujos movimentos refletiam na região, progresso econômico do Cariri, e influências de padres católicos imbuídos das ideias da Revolução Francesa.
A vida econômica do Cariri girava em torno da terra (latifúndio) e do gado. Os grandes proprietários de terra dominavam soberanos, até o começo do século XX onde foram depostos a bala, no sul do Ceará, os coronéis – chefes políticos. Além disso, as secas periódicas agravavam ainda mais a situação.
Outro fator relevante em consideração ao Cariri é o de ter sido transformado em refúgio mais seguro dos perseguidos pelas autoridades, pois devido às estreitas comunicações com a sede do governo, dificultava o contato.
Para o historiador Rui Facó, em seu livro Cangaceiros e Fanáticos, o atraso intelectual em que viviam as populações sertanejas era decorrente da estagnação econômica e cultural oferecia campo favorável ao misticismo e ao fanatismo religioso. Crenças de caráter primitivo eram as “únicas compatíveis com o meio social e grau de cultura dos sertões” (FACÓ, 1983).
É necessário, ainda, pontuar alguns fatores que explicam o surgimento de fenômenos como o de Juazeiro: o regime de propriedade da terra (latifúndio com relações de produção pré-capitalista) que se manifesta mais intensamente em regiões de isolamento em relação às cidades, atraso cultural, maior influência do clero – alucinando as massas.
Dito de maneira genérica como o Cariri estava situado dentro do contexto geopolítico da época, podemos falar do movimento de Sedição e como seus atores se portaram, nesta que foi uma revolta da qual era parte de uma estrutura mais ampla de implicações geradas pela nova política nacional.
Para o destrinchamento da revolta, é necessário analisar comparativamente o que acontecia em Juazeiro e o que estava acontecendo no plano nacional. Em Juazeiro temos a figura de dois personagens é muito importante para compreender a Sedição de Juazeiro: Padre Cícero e Floro Bartolomeu.
Floro chegou ao Juazeiro vindo do interior da Bahia, seu Estado de origem, em 1908. Formara-se em Medicina em Salvador e clinicara durante algum tempo nos sertões de sua terra. Se já conhecia de perto o espírito da gente sertaneja. Chegou ao Cariri, atraído pelas notícias de uma mina de cobre da área do Coxa, no município de Aurora. A mina havia sido adquirida então pelo Padre Cícero Romão Batista, mas sua posse era litigiosa. Floro não teve dúvida e entrou logo em contato padre Cícero, conseguindo em pouco tempo se tornar homem da máxima confiança e da intimidade do Padre, servindo-o como médico particular. Floro ganhou ainda mais prestigio com o sacerdote depois que cuidou da questão das minas do Coxa por conta própria, e independente da justiça. Juntou um grupo de capangas, recrutados na própria cidade de juazeiro e os armou.
Após repelir todos os seus opositores a base de bala e fazer a demarcação da jazida o nome de Floro Bartolomeu projetou-se rapidamente por todo o vale do Cariri e passou a ser respeitado não apenas por ter-se tornado um homem de confiança direta do Padre Cícero, mas por sua coragem pessoal, sua decisão de enfrentar inimigos numa luta armada com poderosos locais, se revelando um verdadeiro chefe.
Em contrapartida no cenário nacional iremos ter a chamada política das salvações. Esta foi à política introduzida por Hermes da Fonseca, então presidente da República. Que culminou com a derrubada das oligarquias situacionistas e na ascensão de grupos de oposição. Estes movimentos se estenderam por vários estados do país, principalmente os do Nordeste e Norte, entre 1910 e 1912, período que se realizaram as eleições em vários estados.
Em resumo a política das salvações buscava tirar antigas oligarquias do poder, substituindo-as por candidatos do atual presidente. No entanto essa rivalidade se dava apenas no campo das disputas políticas, pois entres os partidos não existia nenhuma divergência ideológica, muito menos no que diz respeito a programas políticos ou sociais.
No Ceará o governador Antônio Pinto Nogueira Accioli foi deposto, em janeiro de 1912, com o apoio do Exército. Em abril houve a aliança entre o povo e militares lançando a candidatura do coronel Franco Rabelo, que governaria o Estado. 
O conflito envolveu, de um lado, o novo governador eleito, Franco Rabelo e as tropas legalistas, e de outro as tropas de jagunços comandadas por Floro Bartolomeu, apoiadas pelo padre Cícero e pelos coronéis da região do Cariri, contando ainda com o apoio do senador Pinheiro Machado (RS), desde a capital. O movimento armado iniciou-se em 9 de dezembro de 1913, quando os jagunços invadiram o quartel da força pública e tomaram as armas. Nos dias que se seguiram à população da cidade organizou-se e armou-se, construindo uma grande vala ao redor da cidade, como forma de evitar uma possível invasão.
A reação do governo federal demorou alguns dias, com o deslocamento de tropas da capital, que se somariam aos soldados legalistas no Crato. Apesar de estarem em maior número e melhor armados, não conheciam a região e nem as posições dos jagunços e por isso a primeira investida em direção a Juazeiro foi um grande fracasso, responsável por abater os ânimos dos soldados.
Quando os soldados de Franco Rabelo chegaram a Juazeiro do Norte se depararam com uma situação inusitada: Em apenas uma semana, os romeiros cavaram um valado de nove quilômetros de extensão cercando toda a cidade e ergueram uma muralha de pedra na colina do Horto. A fortificação recebeu o nome de "Círculo da Mãe de Deus". O batalhão ao ver que seria impossível romper o círculo, recuou e pediu reforços.
Os reforços demoraram a chegar e as condições do tempo dificultaram as ações para um segundo ataque, realizado somente em 22 de janeiro e que não teve melhor sorte do que o anterior. Com novo fracasso, parte das tropas se retirou da região, possibilitando que os jagunços e romeiros invadissem e saqueassem as cidades da região, a começar pelo Crato, completamente desguarnecida. Os saques tinham por objetivo obter armas e alimentos e foram caracterizados por grande violência. A última investida legalista ocorreu em fevereiro sob o comando de José da Penha, que acabou morto em combate.
Após expulsar os invasores, Floro Bartolomeu parte para o Rio de Janeiro a fim de conseguir aliados. Os revoltosos seguem para Fortaleza com o objetivo de derrubar o governador. Na capital federal, Floro consegue o apoio do senador Pinheiro Machado. Enquanto isso as forças juazeirenses chegam a Fortaleza e pelo mar uma esquadrilha da Marinha enviada pelo senador impôs um bloqueio marítimo na orla de fortaleza. Cercado, Franco Rabelo não teve como reagir e foi deposto.
Hermes da Fonseca nomeou interinamente Fernando Setembrino de Carvalho, enquanto novas eleições foram convocadas. Com as novas eleições Benjamin Liberato Barroso foi eleito governador e Padre Cícero volta a ser vice novamente.

Messianismo no Juazeiro e o Beato José Lourenço
Os movimentos messiânicos são usualmente derivados da insatisfação social de alguns grupos que, excluídos sociais, econômica e politicamente, buscam a realização de ideais utópicos para suprimir a realidade desfavorável. A insatisfação social dá lugar à movimentação libertadora de caráter religioso, que visa à realização de um paraíso na Terra. Sobre o conceito de Messianismo, nos diz Maria Isaura:

A crença na vinda de um enviado divino, que trará aos homens justiça, paz e condições felizes de existência; 2) a ação de um grupo obedecendo às ordens do líder sagrado, que vem instalar na terra o reino da sonhada felicidade. A crença nasce do descontentamento, cada vez mais profundo, de certas coletividades, diante de desgraças ou de injustiças sociais que as acabrunham; afirma formalmente a esperança numa transformação positiva das condições penosas de existência a se produzir (QUEIROZ, 1977, p.383).
O caso do Juazeiro não foi diferente e teve no beato José Lourenço seu grande personagem.
            José Lourenço Gomes da Silva, que ficaria conhecido como o Beato Zé Lourenço, nasceu em 1872 e, pelo pouco que se sabe sobre sua vida, trabalhou por muito tempo para latifundiários. Mas sua admiração e devoção por Padre Cícero o fizeram mudar-se para Juazeiro para ajudá-lo.
Ao se tornar beato e discípulo do Padre Cícero, José Lourenço muda também sua forma de viver, dedicando-se a partir de então muito mais aos ideais de caridade e piedade que aos próprios interesses. Decidiu por ocultar-se e se purificar, seguindo conselhos de seu mentor. Mas em 1895 retorna, não é claro se por vontade própria ou por aconselhamento do Padre Cícero, para Juazeiro, após encerrar as penitências. Mas, tendo sido criado em ambiente rural em meio a fazendas e tratando da terra e do gado, nem José Lourenço nem sua família se acostumaram à vida urbana de Juazeiro, tendo então se dirigido ao sítio Baixa D’Antas, próximo ao Crato, cidade vizinha a Juazeiro. Já instalado no sítio, sua missão passou então a ser a de ajudar desvalidos e vítimas de perseguições enviados pelo Padre Cícero.
Durante o período em que esteve no Baixa D’Antas, José Lourenço foi envolvido numa polêmica devido a um boi que recebeu como doação feita pelo industrial pernambucano Delmiro Gouveia. O boi, conhecido como “Mansinho” por seu temperamento tranquilo, aos poucos conquistou dentro da comunidade a fama de milagreiro passando a ser venerado. Relatos mais conhecidos sobre as façanhas do boi falam de doenças que eram curadas através da ingestão de sua urina e mesmo de suas fezes, e, em um relato mais espirituoso, há a menção das virtudes do boi, que, certa vez, rejeitou o capim de um jovem que o havia oferecido como pagamento de uma promessa feita para conquistar uma garota, ao saber que o capim houvera sido roubado (MEDEIROS, 2012).
            Mas a fama divinizada adquirida pelo boi acabou tomando proporções grandes demais, e seu resultado tornou-se incômodo para José Lourenço, mesmo que este pouco tivesse a ver com a adoração que havia sido criada em torno do animal. Visando não manchar a imagem do Padre Cícero, que àquela altura já não era mais pároco local, Floro Bartolomeu tentou desfazer a mitologia que havia sido criada em torno do boi, reprimindo as pessoas que o adoravam, ordenando a morte do animal e a prisão do beato por duas semanas.
            Depois de libertado, graças à interferência do Padre Cícero no caso, José Lourenço estava humilhado e mal-visto como subversivo, e buscando se livrar dele de uma vez, o sítio foi vendido e ele teve de buscar nova morada, tendo então se mudado para um local cedido pelo Padre Cícero, o sítio Caldeirão, ou Caldeirão dos Jesuítas, mas que ficou popularizado com o nome de Caldeirão de Santa Cruz do Deserto.
A vida no Caldeirão era atraente pelo caráter próspero da comunidade. Com a morte de Floro Bartolomeu e o apoio quase incondicional do Padre, o Caldeirão floresceu e tornou-se rapidamente relevante para seus membros. Nesse ínterim, o beato José Lourenço se destacou por seu caráter empreendedor e de liderança, ainda que seu espírito fosse apaziguador e seus desejos passassem ao largo dos interesses próprios. De fato, o maior desejo dos membros da comunidade era viver do próprio trabalho e devoção, muito mais que buscar a realização de uma versão terrestre do Paraíso. A prosperidade e o nível da autogestão eram grandes, de forma que só utilizavam dinheiro para comprar remédios e querosene, pois o resto era conseguido entre si na comunidade, através de um sistema de distribuição. “Com isso podemos inferir que, de uma certa forma, o Caldeirão significa(va) um movimento social de contestação pacífica à situação dos sem-terra. [...] Era o trabalhador provando que era possível viver bem do seu próprio trabalho” (RAMOS, 1991).
Com a morte do Padre Cícero, em 1934, José Lourenço assume, ainda que involuntariamente, sua sucessão como figura de liderança. Mas com muita gente a chegar, o arraial despertou a ira das elites; o poder político, sustentado por coronéis, a Igreja Católica e o Estado. Existia a paranóia de um novo Canudos. Por parte da Igreja, havia também forte interesse pelo ideal de Romanização, desde o Concílio Vaticano I, ocorrido entre 1869 e 1870. Segundo Farias (2000), associados ao temor do comunismo enquadraram e prenderam como bolchevique o pregador Severino Tavares, acusado de ter participado da fracassada Intentona Comunista em Natal, em 1935, e de ser um “agente de Moscou” infiltrado entre os camponeses do Caldeirão.
Além do terror vermelho, fez-se propaganda do terrorismo moral. A Igreja e as autoridades do Ceará e de Pernambuco espalhavam entre os católicos boatos sobre o comportamento desregrado do beato. Dizia-se que Lourenço possuía um harém, com muitas beatas ao seu inteiro dispor sexual. As narrativas davam conta de uma versão sertaneja de Sodoma e Gomorra. Devido ao voto de castidade, o padrinho José, como era tratado pelos romeiros, sequer havia casado, além do fato de, à época, já contar mais de sessenta anos de vida.
Mesmo nesse clima de forte tensão, a figura de José Lourenço ganhava ainda mais brilho, em decorrência das novas romarias que se dirigiam ao Caldeirão depois da morte de Padre Cícero. E, mais uma vez, as elites se sentiram incomodadas com o prestígio que a comunidade alcançava.
A comunidade do Caldeirão e José Lourenço sofreram um duro golpe após a morte de Padre Cícero, uma vez que ele havia deixado as terras da comunidade para os Salesianos, possivelmente na esperança de que estes mantivessem José Lourenço no seu controle. Mas não foi o que ocorreu, e, alicerçados na propaganda negativa da comunidade, se formou uma comoção que visava à expulsão dos camponeses, vistos como uma ameaça comunista, da área.
Com a ajuda da Diocese do Crato e dos coronéis, que se queixavam de perder a mão de obra escrava para o sítio de José Lourenço, os Salesianos recorreram ao governador Menezes Pimentel. Espionado pela Polícia Militar cearense, comandada pelo capitão do Exército Cordeiro Neto, o beato recebeu com banquetes o capitão José Bezerra, escalado pela PM para o serviço de espionagem da comunidade. Bezerra chegara ao sítio em meados de 1936, travestido de empresário desejoso de explorar a oiticica, uma das árvores brasileiras mais ricas em óleo, da região. O resultado desta visita foi à entrega ao comando da polícia, de um relatório que desenhava o Caldeirão como um misto de inferno e sucursal de Moscou, o que representou o ato final de legitimação da invasão por parte das tropas oficiais.
Após a invasão, o beato José Lourenço consegue escapar e refugia-se em Exu, onde construiu mais uma pequena comunidade, e aonde veio a morrer em 1946, vitimado pela gota.
A Guerra e a Destruição do Caldeirão
            A guerra contra o Caldeirão foi promovida pela força policial, a partir de reunião provocada pelo Governo do Estado do Ceará, contando com o apoio da Igreja e de latifundiários, ambos com motivos próprios para isso. Os últimos devido à perda crescente de mão-de-obra barata. A igreja pela afronta ao processo de romanização, que estabelecia o fortalecimento da hierarquia no funcionamento da estrutura clerical. Afronta, porque o catolicismo popular incluía elementos que o distanciava das práticas impostas pela hierarquia dominante, ousando romper com as estruturas de subordinação em vigor. As autoridades no âmbito nacional temiam por sua vez, que aquela aglomeração representasse uma nova célula de comunista, também, que aquele movimento crescesse a ponto de se tornar uma “Nova Canudos”, argumento que seria usado como justificativa para a perseguição. Se fez, ainda, propaganda do terrorismo moral. A Igreja e as autoridades do Ceará e de Pernambuco espalhavam entre os católicos boatos sobre o comportamento desregrado do beato, que, diziam, possuía um harém, com muitas beatas ao seu inteiro dispor sexual.O início do conflito se deu com a morte do padre Cícero, que em testamento doou o sítio do Caldeirão a ordem dos padres Salesianos do Crato:

Tudo indica que o padre Cícero tinha confiança no espírito de caridade cristã dos Salesianos. Mas essa previsão estava equivocada: em 1936, os padres salesianos começaram a reprimir o “fanatismo de Juazeiro” e deram amplo incentivo para a operação militar que expulsou os camponeses do Caldeirão. (RAMOS, 2000: 375)
O ataque inicial ao Caldeirão ocorreu no dia 11 de setembro de 1936, quando os moradores foram expulsos e tiveram suas casas queimadas, além de bens confiscados em favor do município do Crato. Os remanescentes, incluindo o próprio Beato José Lourenço, passaram algum tempo vivendo nas matas da Chapada do Araripe. Boatos de que um grupo de ex-integrantes do Caldeirão, liderados por Antonio Tavares invadiriam o Crato, mobilizou novamente as forças policiais, chefiadas pelo capitão José Gonçalves Bezerra. O conflito daí resultante acabou com quatro mortes do lado do governo, incluindo o capitão e cinco do outro lado entre elas do líder Tavares e o Beato Severino. Foi o estopim para uma nova ação, dessa vez maior ainda:
Após a divulgação daquele conflito, fortes contingentes militares partiram de Fortaleza à  caça dos remanescentes do Caldeirão, determinados a vingar a morte do capitão Bezerra. O ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, colocou a força federal à disposição do governo cearense e autorizou o vôo de três aparelhos do Destacamento de Aviação. (…) Dos aviões, as metralhadoras dispararam, enquanto 200 patrulheiros vasculhavam a chapada do Araripe para concluir a missão. Naquele 11 de maio de 1937, cerca de 700 lavradores foram massacrados. Nenhum soldado morreu. Mesmo depois da “grande investida” militar, policiais continuaram a perseguir, prender, torturar e matar pessoas que se vestissem de preto e portassem rosário - as características dos seguidores do beato. (ARAÚJO, 2006: 07)
Posterior a esse embate foi iniciado uma vultuosa campanha na imprensa cearense, onde a figura de José Lourenço era delineada como uma ameaça pública à sociedade, representada, logicamente, pelas elites locais.
A imprensa, por conveniência, construía e disseminava uma imagem negativa do Beato José Lourenço e de suas comunidades, visando legitimar a barbárie perpetrada pelas ações do Governo do Estado e da sua força policial. Destruiu-se moralmente para legitimar a destruição física. José Lourenço ainda tentou reconstruir sua comunidade cristã, mas sempre sob o olhar e repressão dos aparelhos do Estado. Sua morte em 12 de fevereiro de 1946 encerrou as movimentações desse porte, quase relegando as experiências e resultados obtidos ao silêncio, e esquecimento social.

  
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do que foi exposto e com a ajuda das bibliografias pesquisadas, podemos tecer algumas considerações finais acerca do tema trabalhado, especialmente no que tange às características de Padre Ciço, o Padim Ciço do Juazeiro, crença tão forte que perdura até os dias de hoje naquela região.
Diante do conceito de coronelismo defendido por Victor Nunes Leal e José Murilo de Carvalho, o coronelismo não se refere ao consenso comum, de que o coronel é um proprietário de terras, isolado em sua fazenda. No caso do Padre Cícero, percebemos claramente suas características que o tornam um verdadeiro coronel, como o poder de persuasão, forte força política e social, capaz de interferir na vida pública e no rumo que tomará a própria Sedição de Juazeiro.
Além disso, a crença da população pobre do Cariri de que o Padre Cícero era um santo, capaz de realizar milagres, também é equivocada. Sabemos, através de documentação historiográfica, de que a popularidade de Cícero se expandiu devido a este personagem não cobrar dinheiro por seus serviços religiosos e manifestações “místicas”. Grande parte de seus conselhos referiam-se a questões de higiene e saúde, e visto que a população dessa região era pobre e nunca tinham conhecido um médico ou procurado uma farmácia, encontravam nos conselhos do padre os ensinamentos para curas que realmente se efetivavam.
No que tange ao boi “mansinho” que pertencia ao beato José Lourenço, também possamos tecer algumas considerações. O boi que, por possuir um temperamento calmo, foi logo visto pela população como capaz de fazer milagres. Entre as façanhas do boi pode-se citar como dito anteriormente, a cura de doenças através da ingestão de sua urina e fezes. Essa característica messiânica própria da região, era devida ao atraso intelectual da população, que não recebia – até o “milagre” da hóstia, de Padre Cícero – maiores atenções do governo brasileiro, e por conta de sua posição geográfica isolada. Além disso, era comum que essa população fosse persuadida pelo clero a acreditar em crenças e mitos.


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 TEÓFILO, Rodolfo. A sedição de Juazeiro. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922.

Movimento Operário: Greve de 1917


Movimento Operário: Greve Geral de 1917[i]

Alvaro Duarte dos Santos Silva[ii]
Alzernan Elvis Barbosa da Silva[iii]
Andrezza Bárbara Romualda de Melo[iv]
Bruno Leandro Araújo Vitor[v]
Pablo Henrique Oliveira de Lucena[vi]
Wellington Soares e Silva Júnior[vii]


Resumo

           Este artigo traça um panorama da organização sindical no Brasil durante a Primeira República, com suas origens, seu desenvolvimento e a atuação, a partir da historiografia produzida por expressivos autores, além de algumas publicações da imprensa operária da época, contrapondo principalmente as visões dos historiadores Bóris Fausto - com uma obra mais antiga – e de Cláudio Batalha – mais contemporâneo. É dada uma importância de análise especial a Greve Geral de 1917, ocorrida no Estado de São Paulo, como um dos marcos das lutas operárias brasileiras, tratando de entender os fatores que contribuíram para sua eclosão, sua repercussão e suas conquistas.


Palavras-chave: Movimento Operário. Primeira República. Sindicato. 1917. Greve.






1.    Introdução

Este artigo busca analisar estudos e pesquisas através de análises historiográficas com os livros e artigos já existentes sobre a Greve Geral ocorrida em São Paulo no ano de 1917. É importante conhecer os fatos através de uma bibliografia relevante e trocar ideias entre os textos dos autores já consagrados estudiosos deste tema e os trabalhos mais novos que vem sendo produzidos para esclarecer melhor os fatos ocorridos. A Greve Geral de 1917 pode ser considerada um marco, em relação à força do Movimento Operário no Brasil. Assim, procura-se expor neste artigo alguns conhecimentos do que alguns autores se dispuseram a fazer nos estudos dessa Greve, sem perder o foco na história abordada por ela, mas, expondo algumas visões para ser possível ter um entendimento mais amplo dela. O processo de substituição de mão-de-obra e a industrialização no Brasil concorreram para o surgimento de uma classe operária organizada, sendo as primeiras associações de caráter assistencialista.
O processo de industrialização e a substituição da mão-de-obra ocorrida na Primeira República contribuíram para o surgimento de uma classe trabalhadora organizada, sendo as primeiras associações de caráter assistencialista. Com a divisão por categorias, surgem os primeiros sindicatos. Em 1906, ocorre o I Congresso Operário Brasileiro, onde figurariam duas tendências: a anarco-sindicalista e a socialista reformista. Uma parte da organização sindical já contava com a participação do Estado, sendo que a atuação dos sindicatos atrelados ao governo era mais imediatista e a dos não atrelados (anarquistas) via na organização sindical um meio de vencer o capitalismo como um todo. As greves constituíam o principal instrumento de reivindicação dos trabalhadores.
Em seus estudos sobre a greve geral, Bóris Fausto (1977, pg.192) analisa o seguinte:
“Julho de 1917 assumiu na memória social o sentido de um ato simbólico e único. Símbolo de uma mobilização de massas impetuosas, das virtualidades revolucionárias da classe operária [...]. Por sua vez, longe de ser um fenômeno isolado, abre com um imenso eco uma fase de Ascenso do movimento operário.”[viii].

Será mesmo que as palavras de Fausto fazem sentido ainda nos dias atuais? O que não se pode negar é que o Movimento grevista de 1917[ix] daria forma ao Comitê de Defesa Proletária (CDP) constituído por militantes anarquistas e socialistas enquanto órgão organizador das reivindicações e instrumento de denúncia das arbitrariedades patronais e da truculência policial. Dando mostra da sua violência, no mês de julho um regimento policial - encorajado pelo governador do estado a tomarem medidas mais enérgicas -, abre fogo contra manifestantes de uma passeata, resultando na morte do sapateiro José Martinez, intensificando ainda mais o movimento grevista.


2.    Desenvolvimento

O processo de formação do movimento operário no Brasil é um tema bastante complexo, devido aos mais diversos fatores que contribuíram para o seu surgimento, muitos estudiosos já se debruçaram sobre os aspectos que influenciaram tal desenvolvimento. Os autores que serão utilizados neste trabalho delimitaram em suas respectivas obras não só um corte temporal em seu objeto de estudo, como também geográfico. Desta forma, nesta breve proposta de se ater as questões da formação da classe operária brasileira, o foco será o estado de São Paulo, embora o Rio de Janeiro até as décadas iniciais do século XX seja o detentor do maior contingente de trabalhadores. Através das visões divergentes de dois importantes autores, Bóris Fausto e Cláudio Batalha, o assunto será abordado.
Para Bóris Fausto a formação da classe operária brasileira se inicia no final do século XIX e estaria altamente ligada a expansão da economia cafeeira, que teria impulsionado o capitalismo agrário, porém, a descentralização das pequenas indústrias no meio rural impossibilitava uma maior ampliação dos benefícios causados pelo excedente econômico. E que atrelada a este fator, ainda estaria relacionado à crise do sistema escravista e a crescente leva de imigrantes, gerando um aumento do mercado, especialmente de mão-de-obra. Já Cláudio Batalha, um historiador formado na Universidade Federal Fluminense (UFF), não crê que a formação da classe operária está puramente associada à estrutura produtiva, nem pela imposição do trabalho assalariado sem a concorrência do trabalho escravo, pois para ele os dois poderiam coexistir, acredita que a construção de classe é um processo mais demorado, e os resultados só seriam perceptíveis após essa massa trabalhadora adquirir experiências em comum, através da construção de uma consciência e interesses coletivos.
Ainda a respeito de São Paulo, Fausto destaca a eminência imigratória estrangeira, apesar de não desconsiderar a leva migratória interna, para a contribuição do excedente de trabalhadores. No âmbito ideológico ele credita aos imigrantes a inserção das ideologias reivindicatórias. Discordando – em parte – desta ideia, Batalha afirma que os estrangeiros influenciaram a militância, mas não poderiam ser os únicos responsáveis, pois a maior parte dos que vieram ao Brasil eram oriundos dos campos europeus, sem qualquer experiência de engajamento sindical ou político.
Ao traçar o perfil do operariado, os autores destoam novamente, enquanto Bóris Fausto alega que é uma mão-de-obra masculina, branca e fabril, com certa homogeneidade, Claudio Batalha afirma que há uma falsa imagem, pois embora fosse maioria em São Paulo e no sul do país, se encontravam cidades ou até regiões em que esse perfil não representava a realidade, mesmo sendo poucos os relatos sempre existiam conflitos étnicos dentro do movimento operário, por este ser demasiadamente heterogêneo, quando cita outro estudioso em seu trabalho Formação da Classe Operária e Projetos de Identidade coletiva:

“(...) Não se deve esquecer que a classe trabalhadora no Brasil é constituída de elementos díspares e variada em raça, língua, temperamento, cultura e hábitos, o que torna mais difícil o entendimento e a organização.”[x](AMBRIS, 1979, p. 40)


Neste contexto, é possível analisar o operariado feminino ao qual no âmbito fabril estava concentrado nas fábricas têxteis, aonde era parte majoritária da força de trabalho, quanto a esse dado, ambos os autores possuem um denominador comum, ao relatar a grandiosidade das tecelagens, como o tipo de indústria que por muito tempo empregava grandes levas de funcionários.
Claudio Batalha vai além ao tentar explicar o surgimento do movimento operário, para ele a classe é uma manifestação histórica e o embrião seria os trabalhadores qualificados, detentores de um ofício, porque desde o século XIX já não se encontravam artesãos com frequência, pois muitos trabalhadores já estavam submetidos a patrões, e com o intuito de obter poder de barganha frente aos empregadores, se uniam para pleitear melhores condições de trabalho.
Com o advento da República criou-se uma expectativa positiva de melhores condições para a classe operária, mas Batalha relata que a desilusão logo veio, ao perceberem a continuidade vinda com o novo regime. A esperança descrita pelo autor é evidenciada nos meios organizados pelo operariado, sonhavam com novas perspectivas de direitos políticos e sociais. Novos horizontes se abrem ao povo brasileiro, com o estabelecimento da forma republicana de governo no país. A democracia, que na sua acepção pura [...] é o regime de igualdade dos direitos como dos deveres, veio enfim nivelar todas as classes na partilha dos bens sociais, libertando-as do privilégio de umas sobre outras. O Proletariado nacional, que até hoje foi apenas uma força anônima servindo de base para todas as ambições, por inconfessáveis que fossem, passou destarte a ser uma força preponderante na sociedade, um elemento de prosperidade, de riqueza e de progresso. Sob a base da ordem, representada pelos poderes que se constituíram, o industrialismo tomará ingente impulso, valorizando a entidade moral e social do operário, que é modestamente o grande fator da civilização e da grandeza dos povos[xi].
Para entender o porquê de isso ocorrer é necessário estabelecer alguns pontos importantes a respeito da situação de vida do operariado que estava em formação nos grandes centros urbanos naquele momento da Primeira República, visando suas condições de moradia e trabalho. Existe uma ampla bibliografia historiográfica que permeia olhares sobre os meios operários, assim, trouxemos de maneira sucinta aspectos importantes sobre o cotidiano do movimento operário que se iniciava nessa época, compreendendo sua importância na organização e formação da classe operária.
A vida operária não foi substanciada apenas pelas relações sociais, como também por suas condições de vida. Bóris Fausto nos diz, assim como outros, que a vida operária se dava em áreas desvalorizadas (Ex. nos vales, em São Paulo, e em morros, no Rio de Janeiro), novas indústrias e imigrantes recém-chegados eram atraídos pelos seguintes fatores: preço baixo dos terrenos e proximidade das estações ferroviárias. Havia um padrão de moradia nos bairros operários que era expresso pelo excesso de cortiços. Essas habitações eram pobres em estilo (estética), estrutura, higiene e organização. Eram disformes umas das outras, em frangalhos, e suas ruas eram maltratadas e imundas. Essas condições se repetiam em grandes proporções. Pinheiro e Hall citam um jornal, Fanfulla, que estimava a presença desse tipo de moradia em um terço das habitações existentes em São Paulo. O aglomerado desse tipo de moradia acabava por originar muitos cortiços, estes logo se assemelhavam bastantes às vilas operárias.
A particularidade das vilas operárias é que era comum sua formação em torno das indústrias, pois sua contingência poderia ser utilizada como força de pressão ou instrumento de força contra greves. As famílias operárias procuravam se estabelecer perto das indústrias que se localizavam próximas às linhas férreas, devido à logística de escoamento da produção, como já visto se trata das mesmas características que atraíam as novas indústrias e os imigrantes recém-chegados. O caráter comum das vilas operárias se dava por sua ligação com a indústria representando uma relação entre capital e trabalho, pois, esse prolongamento da fábrica, servia como função normativa e disciplinar sobre o comportamento do operário no domínio privado e cotidiano fora da esfera de produção. Aliado a esse mecanismo de organização habitacional e controle, estavam às escolas profissionais que tinham o objetivo de formar cidadãos obreiros de hábitos cívicos. Assim, obtendo-se um controle social amplo. E sob este controle, as vilas buscavam oferecer facilidades – que devem ser observadas com cautela e criticamente – em educação, saúde e moradia. Um exemplo desse caso foi à vila operária Maria Zélia, concebida por um arquiteto francês, Pedarrieux. A vila se constituía numa cidadela operária fechada com escola, creche, clube, igreja, local para práticas esportivas, etc. De acordo com Maria A. de Decca “um mundo autossuficiente e um prolongamento da fábrica ordenava a vida dos operários pela disciplina e ordem através do controle social”.
Foi devido às precárias condições de vida que a insatisfação cresceu em meio aos operários e sintonizou-se com o descontentamento geral da população, provocando a organização das greves. A partir da contradição entre as aspirações destes operários não qualificados e a realidade de suas condições de vida e trabalho foi que os primeiros movimentos reivindicatórios ganharam impulso. É nesse âmbito que surgem as reivindicações por direitos trabalhistas sob diversas orientações e origens. Para uma ideia marcante dessas condições de trabalho/vida dos operários, observemos a citação:

“Vi, certa vez, um vidreiro, furioso porque a peça ficara inutilizada, despedaçá-la na cabeça do mal-aventurado aprendiz, que berrava feito louco, pois os pedaços de vidro, ainda quente, penetraram-lhe pela camisa adentro. E o monstro ainda ria, ao ver sua vítima pulando de dor... [...] O ambiente era o pior possível. Calor intolerável, dentro de um barracão coberto de zinco, sem janelas nem ventilação. Os cacos de vidro espalhados pelo chão representavam outro pesadelo para as crianças descalças. A água não primava pela higiene nem pela salubridade. [...] Havia sempre uns infelizes, os menores, de 7 ou 8 anos, que ficavam por último, pois não podiam enfrentar os maiores, que empregavam a força, tomando-lhes a dianteira da bica. Era a lei do mais forte.[...]” (PENTEADO, 1962, 117-121)[xii]


As reações variaram entre individuais ou coletivas. Casos de assassinatos e revoltas. O campo não se distinguiu, apesar da diversidade da vida no campo, da realidade dura da região urbana. Houve uma resistência coletiva dos trabalhadores. Decca diz que em 1913, em Ribeirão Preto chegou-se a congregar de dez a quinze mil colonos durante uma greve.
De maneira geral, havia o predomínio da miséria e exploração nas fábricas, tornando a situação do trabalho insustentável. As tensões provocadas pela relação entre capital e trabalho culminam em manifestações grevistas, onde temos o maior expoente na Greve de 1917. Lembremos que a expansão da economia cafeeira em fins do século XIX é um marco, pois foi o avanço da economia capitalista de exportação que gerou condições internas para a formação de um núcleo de trabalhadores de serviço, fazendo surgir o proletariado fabril.
Conhecendo um pouco da formação da classe trabalhadora e, analisando as condições de vida que levaram o operário a se organizarem, não se pode deixar de lembrar-se do papel importante da imprensa operária na luta dos trabalhadores. Ao contrário da grande imprensa, a operária está ligada de alguma forma a organização da classe trabalhadora, seu conteúdo é resultado de informações, preocupações, propostas produzidas pela e para a coletividade. Esse tipo de imprensa não pode ser analisado se não for levado em conta os movimentos operários que a acompanhou. Nesse sentido, fala-se que a Revolução Industrial criou novas atitudes e uma nova classe, o proletariado. Para melhor compreensão da história dessa imprensa operária é que Maria Nazareth Ferreira faz uma análise da imprensa operária brasileira, dividindo-a em três partes: a primeira sendo a anarcossindicalista, que vai desde o processo de urbanização (século XIX) até os anos de 1922; a segunda fase, a sindical-partidária, na qual é tratada a imprensa comunista e a da política de Getúlio Vargas (1922 – 1964); e a terceira que aconteceu somente após o golpe de 64, que é a imprensa sindical propriamente dita.
Neste artigo o real interesse está na imprensa referente ao início do processo de urbanização do país, que se iniciou no final do século XIX e início do XX. Neste contexto há grande incidência de imigrantes que vieram trabalhar na lavoura cafeeira e contribuiu para o desenvolvimento e difusão das novas ideias sociais, era a orientação anarcossindicalista. Os trabalhadores não contavam com nenhum meio de comunicação que unificasse e divulgasse suas lutas. Com os militantes anarquistas houve a proliferação da imprensa operária, que por possuir qualidade e quantidade de informações a respeito deste período, tornou-se muito valioso do ponto de vista histórico para o pesquisador. É interessante ressaltar que dos 343 títulos de jornais deste período, 60 eram editados em idioma estrangeiro, principalmente italiano. Isso mostra a forte presença dos imigrantes no país. Foram também eles que fundaram os jornais editados em português. Além de tratar do trabalho, os problemas enfrentados pelos imigrantes e a vida que levavam aqui eram os assuntos tratados pelos jornais.
O mais antigo jornal desta fase data de 1847, fundado em Recife, com o nome de O Proletário, outros também foram importantes como: O Jornal dos Tipógrafos, O Trabalho, A Barricada, O Grito do Povo, entre outros. A maior preocupação dos líderes era atingir o maior número possível de trabalhadores, o que dificultava bastante a sua ação eram as cisões por motivos religiosos e políticos. A imprensa operária também não conseguiu encontrar certa regularidade em sua distribuição, ora devido a dificuldades financeiras, ora devido perseguição por parte do Estado. Seu formato variava de acordo com as condições de papel e máquinas disponíveis, e sua periodicidade era determinada pelos acontecimentos. Percebe-se ainda ausência de publicidade e a figura do repórter não existia, a notícias eram feitas pelos próprios operários.
A importância da imprensa operária desta época está intimamente ligada a um forte personagem – Edgard Frederico Leuenroth[xiii] (1881-1968) –, nascido em Mogi Mirim, São Paulo. Desde os 12 anos, ele trabalhou como tipógrafo e em 1897 publicou seu primeiro jornal “crítico e literário”, O Boi. Nos primeiros anos de 1900, interessou-se pelo socialismo e frequentou o Círculo Socialista; logo a seguir, foi atraído para o movimento anarquista do qual jamais se afastou. Em 1903 fundou o Centro Tipográfico de São Paulo e no ano seguinte transformou-o em União dos Trabalhadores Gráficos. Fundou, dirigiu e colaborou com a imprensa operária e libertária, algumas vezes sob os pseudônimos Palmyro Leal, Frederico Brito, Siffleur, Len, Routh, entre outros.  Desempenhou papel de destaque na Greve Geral de 1917, em São Paulo. Para dar força a propaganda grevista e aos anseios revolucionários professados pelos libertários, fora criado o periódico A Plebe[xiv], que já pela escolha do seu nome revelava as pretensões anarquistas, de através de uma Greve Geral, como a que se equacionaria no transcurso de 1917, dar os primeiros passos rumo a Revolução Social, mediante “(...) à magnitude deste extraordinário momento histórico por que está atravessando a humanidade”. (KHOURY, 1981: 130). Escrevia assim, sobre os objetivos de A Plebe – o secretário do Comitê de Defesa Proletária (CDP) e jornalista libertário –, Edgard Leuenroth (1881 – 1968). Assim através de suas mãos nasceu em 1917, o referido jornal, tendo como um dos motes norteadores as insurreições que sacudiam a Rússia, desde fevereiro do corrente ano.  
Esse periódico sofreu várias intervenções policiais e por diversos períodos teve a sua circulação suspensa. Edgard Leuenroth encerrou definitivamente a publicação dele no ano de 1949. O jornal O Estado de São Paulo”, fala assim sobre Edgard Leuenroth, em 9 de janeiro de 1918:  "Toda a imprensa o considera um sonhador, um utopista, desses que põem toda a sua alma na propaganda das ideias que um dia irão dominar o mundo inteiro.".
Compreendendo como estava a vida do operariado, vendo a formação dos sindicatos e o papel fundamental da imprensa operária, é possível analisar melhor a greve geral de julho de 1917. Esta realizada em São Paulo fora um dos marcos de manifestação política durante a Primeira República; sua ressonância transpassou a cidade paulista e ecoou em diferentes lugares no território nacional. Serviu também como força motriz para o retorno do movimento operário que ao longo dos anos vivia em constantes oscilações e crises internas.
A influência do momento político-econômico se faz presente para a busca do entendimento de revoltas urbanas e sociais desse porte que não ficaram presas no âmbito da cidade de São Paulo, mas se constituíram como contestações em órbita global. A Primeira Guerra Mundial trouxe grandes transformações; seu prolongamento afetando a economia, trazendo a galope a inflação; a perda do poder de compra, enfim, um período nefasto ligando, infelizmente, a todos na guerra. Os altos índices inflacionários também atingiram o território nacional: São Paulo que ao longo dos anos fora se constituindo um grande polo econômico, com uma crescente estrutura industrial e quantitativo operariado, formado majoritariamente por imigrantes ou descentes dos mesmos, atravessava um momento delicado. O alto custo de vida e com salários que não conseguiam suprir as necessidades básicas, trazia assim, a insatisfação e descontentamento da classe operária como o descaso do governo vigente. Aliado a essa conjuntura, as péssimas condições de trabalho, os atrasos salariais, o tolhimento das possibilidades de organização sindical foram pontos importantes para o movimento de 1917. A greve em sua fase incipiente inicia-se quando em 9 de junho de 1917  os trabalhadores  do Cotonifício Crespi, grande  empresa de fiação e tecelagem  de algodão, localizada na Móoca paralisaram  parcialmente sua atividades; um dos fatores agravantes fora o prolongamento do serviço noturno sem acréscimo salarial. 
Os operários descontentes com as imposições, reivindicavam 15% a 20% de aumento salarial; nesse período um setor da fábrica com cerca de 400 trabalhadores  entram em greve e as reivindicações se ampliam: regulamentação do trabalho das mulheres e dos menores, supressão da  contribuição pró-pátria; as exigências feitas pelo operariado não são atendidas pela Crespi que tenta forçar a volta dos trabalhadores, acarretando no descontentamento dos operários levando a paralisação total da empresa. Em 26 de junho surge uma greve em outra fábrica, também do setor têxtil – A Estamparia Ipiranga – de Nami Jafet & Cia com cerca de 1.500 operários. Os mesmos possuíam exigências parecidas com os trabalhadores da Crespi, as variações são a respeito de aumento girando em torno de 20% a 25%; não havia contribuição pró-pátria, mas existia 2 meses de atraso salarial. Desde o início, a direção da empresa se mostrou inclinada a aceitar as propostas dos operários. Após 10 dias de paralisação os grevistas voltam ao trabalho com todas as exigências aceitas.
Destaca-se, segundo Bóris Fausto (1977), a participação das mulheres nos discurso de rua e também a presença da Liga Operária da Móoca um reduto importante para a formação organizacional da greve. Essa participação feminina na greve de 1917 poderia se tornar um tema de um trabalho futuro, tendo um maior enfoque nas pesquisas. A maioria das empresas que paralisavam exigia dentre outras coisas, a regulamentação do trabalho da mulher nas fábricas.
É interessante salientar a importância das ligas operárias no movimento grevista. Situadas nos bairros operários seu objetivo maior era de articulação e organização da classe; a conscientização de suas condições de trabalho e também sobre a opressão do patronato. Ligas como da Móoca, que teve grande influência a paralisação da Crespi, tendo sua sede servido de local para conversações a respeito da mesma; Belenzinho, Bom Retiro, Cambuci são exemplos da transformação das ligas operárias em centros de resistência operariada. Em 7 de julho a greve alcança uma outra empresa importante, a fábrica da Antártica, situada na Móoca com aproximadamente 1.000 operários. Antes de entrarem em greve, os operários chegaram a enviar vários ofícios para a direção da empresa, porém não foram atendidos. Ofícios esses, que giravam em torno de aumento salarial de 13% e da fixação da jornada de trabalho em 9 horas. Além disso, durante o verão, a demanda de bebidas aumentava, elevando as horas de trabalho sem acréscimo na renda dos operários.
Os ânimos começam a se acirrar, havendo passeatas e até mesmo trocas de tiros entre os grevistas e a polícia. Em meio dessa efervescência, surge como ponto alto do movimento de 1917 a morte de José Ineguez Martinez, um jovem sapateiro de 21 anos, atingido por uma bala no estômago durante uma das manifestações grevistas, acabando por se tornar um mártir do movimento. Seu enterro é acompanhado por cerca de 10.000 pessoas.

“No dia seguinte ao enterro de Martinez, a cidade de transforma em um campo de batalha. Seria excessivo imaginar, porém, que o governo tenha perdido o inteiro controle da situação. A gravidade da revolta provoca uma extensa mobilidade militar, com o deslocamento de tropas do interior do Estado e o apoio do governo federal, calculando-se a 13 de julho em 7.000 o número de milicianos estaduais na cidade.” (FAUSTO, pg. 197, 1977)


A partir daí, a greve, de julho de 1917, ganha maiores proporções; 35 empresas entram em greve, inclusive a Estamparia Ipiranga, que volta a paralisar por solidariedade aos demais grevistas. Durante os conflitos, os grevistas chegam a atacar algumas autoridades. Em um dos tiroteios, os manifestantes atacam o carro do delegado Rudge Ramos, que consegue fugir. Outro grupo tenta assaltar a casa do secretário de justiça na Avenida Paulista, mas é impedido pela força que guardava o prédio. Além disso, armazéns, veículos que se arriscam a transitar pelas ruas e até mesmos algumas casas são assaltadas; como na Revolta da Vacina, os lampiões de iluminação são alvos de depredações.
Nesse momento de ebulição temos a formação do Comitê de Defesa Proletária, formado por representantes dos grevistas, que cria uma comissão paralela composta por jornalistas para a negociação com o patronato; nomes como Edgard Leuenroth, Teodoro Monicelli, Candeias Duarte e Gigi Damiani tem o papel de mediar às negociações entre os operários e Empresário/Estado. O Comitê formula um programa de reivindicações que tinha como pauta aumento salarial de 35% para os salários inferiores a 5$000 e de 25% para os mais elevados; proibição do trabalho de menores de 14 anos; abolição do trabalho noturno de mulheres e menores de 18 anos; jornada de trabalho de 8 horas; acréscimo de 50% nas horas extras; respeito ao direito de associação; libertação dos grevistas presos; permanência no emprego dos participantes da greve.
Além das propostas enviadas para as empresas, que beneficiariam os trabalhadores; estava na pauta dos grevistas reivindicações para o governo, que melhorariam a vida do consumidor em geral. Neste ponto podemos observar a importância da greve de 1917 não só para o operariado, mas para a massa popular. Nessas reivindicações encontramos pedidos para a redução do preço do aluguel, controle da inflação e até mesmo para que houvesse uma maior fiscalização estatal para impedir a adulteração dos alimentos. A comissão de jornalistas em 13 de julho media as negociações com os operários e os patrões, que lançam a contra proposta, um aumento de 20%, promessas de respeitar os direitos dos operários e de não demitir os grevistas. Também durante a reunião as reivindicações feitas pelo o Comitê ao governo para controlar a inflação e fiscalizar para que os direitos dos trabalhadores fossem atendidos. Dois dias depois, o Comitê aceita a proposta patronal e do governo. Comícios foram programados para com a finalidade de comunicar aos grevistas a resolução e processo de conduzir o final do movimento que fora se dissolvendo gradativamente.
Quando se fala da Greve de 1917 deve-se relembrar que movimentos grevistas eram frequentes, mas em sua maioria sendo resolvidas rapidamente e tendo com a força policial para abafa-las de forma eficaz. Como grande palco para a eclosão dessas manifestações devido, seu posicionamento diferenciado diante as outras capitais nacionais, São Paulo possui exemplos de processo de insatisfação da classe operária ao longo do início da República: o movimento grevista da Companhia Paulista em 1906, como salienta Bóris Fausto “a principal greve ferroviária do Estado, em toda a história da Primeira República” (pg.135,1977) traz motivações recorrentes em tantos outros movimentos grevistas como o descontentamento salarial e opressão a livre associação sindical. A greve da Paulista não durou muito; seu desfecho é violento e muitos operários são demitidos e presos. Suas reivindicações não foram atendidas. Um ano após, em 1907, surge à greve pelas oito horas de trabalho, abrangendo fábricas no centro da capital paulista e aderindo setores inicialmente da construção civil, na indústria metalúrgica e depois sapateiros, gráficos, têxtil; outro ponto em destaque, fora a escassez de organização dos grevistas evidenciada por Fausto, recorrência nestes movimentos. Pouco das reivindicações foram atendidas e demissões, repressão e prisões são palavras chaves para os acontecimentos.
Outro movimento que retorna as mobilizações operárias é em 1912 com operários da Mariângela e Santana que eram no momento as duas maiores empresas têxteis de São Paulo com reivindicações de aumento de salário, muito permeado pelo momento vivido na economia brasileira:

“A acentuada expansão da economia brasileira nos anos de 1910/meados de 1913 foi acompanhada, a partir de 1911, de uma tendência à elevação de preços. Na Capital de São Paulo, jornais apontavam circunstâncias particulares para o agravamento do problema: a cidade recebera um grande afluxo populacional sem que a oferta de bens fosse suficiente para atender às novas necessidades; a escassez de casas de aluguel se tornara aguda, multiplicando-se as queixas contra o critério adotado pelo prefeito Antônio Prado no seu esforço de remodelar a cidade” (FAUSTO, pg.150,177)


Vários elementos das outras manifestações estão contidos na Greve de 1917 para se perceber o quão a luta da classe operária é formada por diferentes momentos, ora em hiato, ora por uma eclosão que desatina em processos de mobilização grevista e, tentativas de organização da classe. O que acontece em São Paulo em 1917 é marcante também por seu teor das reivindicações, pedidos que sendo executados trariam benefícios, não só à classe operária, mas sim para o trabalhador assalariado como um todo, entretanto, o que fora acordado entre  os operários e o Patronato/Governo durante as negociações não foram seguidas devidamente. Mobilizações grevistas ao longo de 1917, porém, sem a amplitude e articulação na que se instaurou em julho, percorreram ao longo dos meses. Segundo PINHEIRO & HALL (1979, pg. 228) “a grande greve de maio de 1919, em São Paulo foi sob alguns aspectos, a continuação sendo as mesmas, as características gerais do movimento eram similares”.
Outras questões também giram em torno da Greve de 1917 como o seu possível caráter espontâneo: indagações sobre a greve como uma rebelião das massas proletárias, assim instaurando as paralisações ou um movimento de certa forma em processo previamente articulado, que ao longo dos seus desdobramentos buscam instigar a classe operária a se rebelar contras os patrões e governo.
Bóris Fausto, em trabalho de 1974 – Conflito Social na República Oligárquica: a greve de 1917 – cita Leôncio Martins Rodrigues a respeito dessa questão; Rodrigues sinaliza em sua obra Conflito social e sindicalismo no Brasil que a greve de 1917 não possui ligação com o avanço do sindicalismo ou movimento organizado, mas foi reflexo das questões sociais, a carestia e possivelmente a Revolução Russa. Empresas e Governo foram tomados e o Comitê de Defesa Proletária foi formado às pressas. Posicionamento como esses nos levam a tentar definir a Greve de 1917 com uma espécie de “tomada de bastilha”, essa visão fora ao longo do tempo reforçada com publicações, usando o termo atribuído por Cláudio Batalha (1995) de “produção militante” trabalhos que buscavam ver o movimento de 1917 como “insurreição das massas proletárias”. Nome como Edgard Leuenroth, um dos integrantes da comissão mediado da greve possuía um posicionamento nessa linha de raciocínio:
“[...] A greve geral de 1917 foi um movimento espontâneo do proletariado sem interferência, direta ou indireta, de quem quer seja. Foi uma manifestação explosiva, consequente de um longo período de vida tormentosa que então levava a classe trabalhadora[...]” (HALL, PINHEIRO, 1979).


Segundo Fausto a greve não fora algo acidental. O autor tenta explicar o significado do espontaneísmo: “A espontaneidade pura só existe nos livros de contos de fada acerca do movimento operário e não em sua verdadeira história.” (FAUSTO, 1974).
É importante salientar que para Fausto o momento político e socioeconômico é importante para o movimento de 1917, a inflação, a carestia, as condições do operariado nas fábricas. Entretanto, temos que observar as possíveis comunicações entre os operários trazendo novamente em questão a influência das ligas operárias; as tensões nos meses antecedentes da Greve de 1917 foram também acompanhadas de um esforço organizatório, apesar de todos os seus limites.
A greve geral de 1917 não fora um movimento que sanou todos os problemas da classe operária, mas um ponto para as tentativas de organização da estrutura sindical brasileira: greves, passeatas, comissão, conflitos com a polícia foram constante na história do movimento operário em sua eterna busca por transformações e melhorias das condições de vida e trabalho.
Assim, é possível perceber nas reivindicações do movimento operário na Primeira Republica traços do que posteriormente se concretizaria numa legislação trabalhista. Também é possível notar a inexistência de um conjunto de leis que regulassem as relações de trabalho nesse período, principalmente por conta da influência do liberalismo no Estado. Como bem coloca Luiz Werneck Vianna, o liberalismo defendia a propriedade privada e as relações entre entes privados. Logo, o empregador detinha a propriedade de algum meio de produção e o trabalhador possuía a si mesmo como propriedade, o seu trabalho. A relação trabalhista se estabelecia entre dois entes privados: trabalhador e empregador.
Uma vez que o Estado liberal não deveria intervir em relações privadas, não lhe competia estabelecer uma legislação para regular tal relação, cabendo ao patrão e ao empregado a assinatura de contrato, de forma que o primeiro oferecia o pagamento ao segundo em troca dos seus serviços. Nesse caso, cada empregado era considerado individualmente nesse processo, o que dava certa margem para arbitrariedades, como diferenças salariais ou de tratamento entre os funcionários.
As tentativas de criação de uma legislação trabalhista esbarravam também em aspectos legais. Projetos nesse sentido eram barrados sob a alegação de ferir a Constituição de 1891, em seu artigo 72, parágrafo 24: “é livre o exercício de qualquer profissão moral, intelectual e industrial”. Ora, nesse caso o trabalhador, qualquer que seja, tem o direito de trabalhar quantas horas quiser, no turno que desejar, aceitando o pagamento que achar justo. É notório, no entanto, que na maioria dos casos o trabalhador era levado pelas circunstâncias a exercer suas atividades em condições degradantes, com jornadas excessivas e salários incompatíveis com o custo de vida. Temos duas realidades: a jurídica e a factual.
Com a formação dos sindicatos, os trabalhadores passam a ter maior expressividade e representatividade. Se antes eram tratados como entes individuais nas relações de trabalho, agora constituíam uma organização plural e consequentemente mais forte. Em casos de arbitrariedade patronal, o trabalhador poderia se aliar a seus pares e pressionar o empregador. Dentro dessa lógica, a relação de trabalho deixava de ser entre dois entes privados e passava a ser entre o patrão e os sindicatos de classe, portanto, “desigual”. Tal compreensão justificativa a ação do Estado na repressão às manifestações grevistas, uma vez que, na ótica do liberalismo, os trabalhadores unidos eram mais fortes que o patrão isoladamente e era preciso contrabalançar essa relação.
Uma legislação trabalhista propriamente dita só tomará forma com a Consolidação das Leis Trabalhista, no governo Vargas. Tal conjunto de leis abrangerá questões contratuais de trabalho (muitas, como já foi dito, já figuravam nas memórias das primeiras greves operárias), de previdência e também a organização sindical. Se por um lado os trabalhadores passam a possuir uma regulamentação formal, por outro a intervenção do Estado no sentido de regular a atuação dos movimentos reivindicatórios dos trabalhadores servirá para tornar os sindicatos órgãos menos combativos, devido às restrições previstas em lei.

3.    Considerações Finais

A organização e atuação do movimento operário no Brasil constitui um fenômeno complexo, que carrega elementos de diversas correntes ideológicas e uma ampla gama de possibilidades de análise.
Ao analisar brevemente a sua formação e uma das principais greves ocorridas na Primeira República, este artigo tentou com que o leitor compreendesse melhor a situação do operariado e, consequentemente, o fenômeno da constituição de organismos voltados para a luta por melhores condições de vida e trabalho. A greve como instrumento de reivindicação também é colocada como objeto de análise, principalmente quanto as suas motivações e formas de organização.
A revisão bibliográfica nos leva também a refletir sobre o avanço nesse campo da história e na necessidade constante de rever as produções acadêmicas, cruzando informações e enriquecendo a análise do fenômeno. Podendo perceber que ainda muito pode ser pesquisado neste campo, que ainda está em aberto.
Lembrando que as historiografias antigas são de extrema importância para fundamentar uma base em uma melhor análise futura. Portanto, historiadores como Bóris Fausto e outros de conceitos anteriores também podem ser utilizados para compreender o processo de formação e fundamentação operária, fazendo uma conceituação historiográfica com autores mais recentes que tratam deste período, como Cláudio Batalha.
A Greve Geral de 1917 foi marcante até os dias de hoje. Sendo lembrada por ter envolvido tantos operários de uma só vez, como pela importância na mudança realizada mais tarde na Constituição, de modo a repensar as questões trabalhistas e, servir de exemplo para mostrar que a população tem força, basta se unir.





Abstract

            This article presents an overview of union organization in Brazil during the Republic First, with its origins, its development and operation, from the historiography produced by significant authors, and some of the workers press publications of the time, mostly opposing the views of historians Boris Fausto - with an older work - and Claudio Batalha - more contemporary. Importance is placed special analysis of the General Strike of 1917, held in São Paulo, one of the landmarks of Brazilian workers' struggles, trying to understand the factors that contributed to its outbreak, its impact and its achievements.

Keywords: Labor Movement. Syndicate. First Republic. 1917. Strike.



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- VIANNA, Luís Werneck. Liberalismo e Sindicato no Brasil. 2 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.

Jornais e periódicos:
Fanfulla (1904)
A Voz do Trabalhador (1906)
A Plebe (1917)

Sites (vistos na quinta, 18/10, e revisitados no domingo, 21/10, e na segunda, 22/10):


Notas:

[i] Texto elaborado a partir das Normas da ABNT para avaliação da Cadeira de História do Brasil VII do Curso de Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco.

[ii] Aluno de Graduação do 6º Período do Curso de História da Universidade Federal de Pernambuco.                                     e-mail: mega_duarte@live.com

[iii] Aluno de Graduação do 6º Período do Curso de História da Universidade Federal de Pernambuco.                                     e-mail: elvis.barbosa22@gmail.com

[iv] Aluna de Graduação do 6º Período do Curso de História da Universidade Federal de Pernambuco.                                     e-mail: dedeu18@hotmail.com

[v] Aluno de Graduação do 6º Período do Curso de História da Universidade Federal de Pernambuco.                                     e-mail: bruno.vitor092@gmail.com

[vi] Aluno de Graduação do 6º Período do Curso de História da Universidade Federal de Pernambuco.                                     e-mail: lucena.pablo87@gmail.com

[vii] Aluno de Graduação do 6º Período do Curso de História da Universidade Federal de Pernambuco.                                     e-mail: wellingtonjunior_s@hotmail.com

[viii] FAUSTO, Bóris. Trabalho Urbano e Conflito Social. 2ª Ed. São Paulo. Editora Difel, pág. 192, 1977.

[ix] Movimento que dava os primeiros passos em meados de junho, através de trabalhadores da indústria têxtil Cotonifício Crespi, na Moóca, e que no transcurso de julho foi ganhando mais adeptos, deflagrando uma Greve Geral por três dias. Sobre tais acontecimentos destacamos um importante relato agregado a obra: BEIGUELMAN, Paula. Os companheiros de São Paulo. 2ª ed. São Paulo: Global, 1981.

[x] Alceste de Ambris. “II movimento operário no stato de São Paulo”. In II Brasile e gli italiani. Florença, 1906, reproduzido em Pinheiro e Hall (1979, p. 40).

[xi] “O operário e a República”. Voz do Povo, 1 (2), Rio de Janeiro, 7 de Janeiro de 1890, p. 1.
[xii] PENTEADO, 1962, 117-121, apud PINHEIRO e HALL, 1981, pp. 55-57.
[xiii] Importante militante anarquista envolvido na desenvoltura de diversos jornais anarquistas, entre os quais A Terra Livre, A Lanterna, A Plebe, A Vanguarda, Ação Direta, fora um dos fundadores da Federação Operária de São Paulo (1905) tendo participado da organização do Primeiro, Segundo e Terceiro Congressos Operários Brasileiros, ainda através de suas mãos ganhava forma um dos mais importantes arquivos sobre as lutas sociais no Brasil, hoje sob a responsabilidade da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Da autoria de Leuenroth publicou-se: Anarquismo: roteiro da libertação social. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1963 (reeditado em 2007 pela editora Achiamé); A organização dos jornalistas brasileiros (1908-1951). São Paulo: COM-ARTE, 1987. Igualmente, publicou-se uma pequena e interessante biografia sobre este combatente da liberdade na coleção Rebeldes Brasileiros, fascículo 7, da revista Caros Amigos.

[xiv] Importante jornal anarquista surgido em 1917, em São Paulo, pelas mãos do jornalista libertário Edgard Leuenroth. A Plebe, um dos mais duradouros jornais anarquistas no Brasil, perdurou até 1949 (tendo uma trajetória marcada por interrupções), sendo o mesmo um “momentâneo” substituto do periódico anticlerical A Lanterna, que interrompia suas atividades em 1916 (reaparecendo em 1933).