domingo, 18 de março de 2012


Wellington Soares
Durante as discussões nas aulas de Brasil VII, ministradas pela professora Isabel Guillen, vários questionamentos foram realizados sobre a formação da identidade nacionalponto levantado a partir da engenhosidade para se criar um herói para a nação, carente neste aspecto de indivíduos populares que atendessem todas as características, ou que pelo menos possuíssem valores próximos as camadas populares.
No terceiro capítulo, o autor José Murilo de carvalho tece dinamicamente as disputas que colocam o Mártir da Inconfidência e o Frei Caneca, considerado herói da luta pela independência e contra o absolutismo. Apesar de deixar nas entrelinhas uma preferência pela personalidade combativa de Frei Caneca, José Murilo, identifica e expõe as justificativas utilizadas sistematicamente pelos interessados em construir e inserir esse ícone brasileiro na mística do povo.
Dessa forma o autor sequencia as batalhas historiográficas, entre essas duas figuras, expondo motivos que enfraqueceriam a candidatura do Frei, como a regionalização de suas causas, o franco declínio econômico do nordeste, em detrimento da força que uma figura como Tiradentes, representante oriundo do eixo econômico do Brasil, visto que o período de edificação deste personagem é na "República do café com leite".
Ideologicamente estaria talvez o principal risco em não assumir uma figura que mantinha fatores religiosos e de aceitação de sentenças, como da personalidade mineira, ao contrário o Frei propunha participações e políticas mais radicais que englobassem os direitos do povo, desta forma seria ele o incitador das classes populares, trazendo o povo para frente dos "bastidores".

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: o imaginário da república do Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 1990;

Proclamação da República: uma esperança para o povo

Por Natália Ferraz

Segundo o dicionário, República significa: organização de um Estado com vista a servir à coisa pública, ao interesse comum; Sistema de governo em que um ou vários indivíduos eleitos pelo povo exercem o poder supremo por um tempo determinado; entre outras definições. Contudo, certamente, era dessa maneira que a maioria da população brasileira estava pensando. Que além de se tornarem cidadãos políticos elegendo o governante teriam seus interesses defendidos. Mas não foi bem assim que aconteceu, pelo contrário, de fato com a extinção do Poder Moderador a concentração do poder foi retirada das mãos de um único governante, mas esse poder foi transferido para as mãos dos grandes proprietários de terras, de empresários, enfim, para as mãos da elite tanto da cidade como do campo.

Ao ser proclamada, a República brasileira, não tinha um direcionamento certo para ser tomado. Aqueles que a proclamaram estavam divididos a respeito de que “forma” de república seria aqui aplicada. Havia o grupo que defendia uma república ditatorial, outro que era a favor de uma república nos padrões norte-americanos e tinha aqueles que tinham uma inclinação por uma república jacobina. Como se vê mesmo entre os republicanos haviam uma efervescência de ideologias diferentes, característica bem marcante da época. O que se sabe é que foi imposta no Brasil uma República com a mínima participação popular, onde o povo não tinha acesso ao poder público, não possuía o direito do voto e muito menos tinha os seus direitos defendidos pelos seus “representantes”

Com a proclamação necessitava-se que houvesse uma mudança da “cultura política” brasileira. Era preciso que a população deixasse de lado os pensamentos oriundos do regime monárquico e imperial. Essa função, da mudança de mentalidade era bem complicada e se tornava ainda mais difícil pelo fato do povo não ter tido participação ativa do processo de mudança de regime político.

Rodrigo Patto coloca em seu texto, Desafios e possibilidades da apropriação de cultura política pela historiografia, que “nos casos de ausência era necessário desenvolver a cultura política, inculcá-la nos povos e sociedades ignaros”. No caso do início da República considero que a sociedade brasileira possuía a sua cultura política, mas, segundo os olhares dos republicanos essa “cultura” estava obsoleta, precisava ser modificada.

Com esse objetivo, os republicanos utilizaram vários artifícios, eles estavam à procura de um mito, um herói que representasse a República brasileira, porque como disse José Murilo de Carvalho: “heróis são símbolos poderosos, encarnações de ideias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva”.

Esse “personagem” foi encontrado na figura de Tiradentes, homem que lutou pela independência do País. Mas para torná-lo de fato um herói, um mito, modificaram a sua aparência, praticamente construíram uma nova identidade para ele e o transformaram em um Cristo cívico.

O povo ficou de fora da proclamação, reverenciou um herói “forjado” e imposto, mas ainda assim tinha esperança de usufruir da República, de ter os seus interesses defendidos e de ter uma participação ativa na vida política de seu país. Até hoje a sociedade brasileira nutri essa esperança.


CARVALHO, José Murilo. A Formação das Almas: o imaginário da república do Brasil,São Paulo, Companhia das Letras, 1990.

SÁ MOTTA, Rodrigo Patto. Culturas Políticas na História: Novos Estudos. Belo Horizonte, 2009.

O movimento pré-republicano


                                                                                                                                         Por Janaina Paz

“Com o fim do Império vem a República”, muitas vezes é assim que pensamos quando vem em nossa mente a questão política do Brasil, como se a mudança na forma de governo fosse assim tão simples. Diante disso se faz necessário um estudo mais aprofundado no que se refere aos motivos para o acontecimento desse fato.

A idéia republicana já permeava algumas mentes nas discussões  da Inconfidência Mineira, da Guerra dos Alfaiates, na Revolução de 1817 em Pernambuco e na Farroupilha, sendo esta última um maior exemplo de rebelião republicana no período regencial. Havia também um descrédito das instituições imperiais e a abolição havia criado um descontentamento entre os grandes proprietários escravistas, que eram o principal apoio da monarquia. Além disso as modificações sociais e econômicas do Império tiveram implicações diretas com a situação política da época, os partidos Liberal e Conservador, não queriam que o sistema político fosse modificado, por outro lado novos grupos reclamavam essas modificações e entravam  em choque com o poder do Império.

Essas ideias republicanas não eram de exclusividade dos políticos, os oficiais do exército também já discutiam o republicanismo, adquirindo consciência de sua importância como instituição, os militares passaram a exigir uma maior participação na vida política do país através do republicanismo e do movimento abolicionista. Esse republicanismo que se difundiu entre os militares tinha origem no positivismo de Augusto Comte, que visavam uma ditadura republicana como forma de sanear o Brasil dos males criados pelo Império.

Um outro acontecimento importante no movimento pré-república  foi a publicação do Manifesto Republicano, este documento reunia as propostas lançadas pelo republicanismo, propunha que o Brasil tivesse uma certa autonomia das províncias em relação ao governo central, isso beneficiava os produtores de café que teriam liberdade para manter relações comerciais com o exterior e que nosso país se transformasse em uma república federativa para se adequar ao resto da América. Vale salientar que os evolucionistas que faziam parte desse grupo, queriam a ajuda do imperador para o fim da Monarquia, mas sem violência.

Diante desses fatos podemos afirmar que a crise do Império era irreversível, ocorreram diversas manifestações populares, e a oposição à monarquia era cada vez maior. As principais críticas tinham como motivo o  autoritarismo do Poder Moderador exercido pelo D. Pedro I, foi nesse clima agitado que a República foi proclamada no Brasil.
CARVALHO, José Murilo. A Formação das Almas: o imaginário da república do Brasil,São Paulo, Companhia das Letras, 1990. 

1889

Por Raphael França

Nos fins do século XIX, quando se deu a proclamação da república brasileira, existia no contexto do mundo ocidental uma batalha ideológica acerca das utopias republicanas. Estas ideologias baseavam-se em duas formas de liberdade: a antiga e a moderna. Por antiga entendemos uma participação direta do povo no governo do Estado, a decisão em praça pública dos rumos da nação. Em oposição, a liberdade moderna seria caracterizada pela representação, tendo em vista que o homem econômico moderno não dispor de tempo a perder referendando coisas de governo. Fundadas em um destes dois alicerces teríamos três versões de república nas mentes dos atores de 1889: Jacobina, Liberal e Positivista.

O modelo liberal, advindo na Revolução Americana de 1776 é baseado na liberdade moderna, ou seja, a representatividade inibindo a participação popular. Os senhores do café paulista eram partidários desta alternativa, pertenciam ao partido republicano mais organizado do país[1], eram acompanhados pelas elites das províncias mais ricas como Minas Gerais e o Rio Grande do Sul. Visavam o federalismo, que os deixaria com uma maior liberdade em relação ao governo do Rio de Janeiro. O problema deste plágio seria a falta de uma revolução anterior que diminuísse drasticamente a desigualdade como acontecera nos EUA.

A jacobina refere-se aos primórdios da Revolução Francesa de 1789, na qual o povo participou diretamente da derrubada do antigo regime, agindo posteriormente no governo do Estado. Este modelo chega a ser adotado parcialmente por Floriano Peixoto. Porém, de acordo com José Murilo de Carvalho, “caso tivesse sido tentada qualquer revolta do tipo pretendido, o povo que em Paris saiu às ruas para tomar a Bastilha e guilhotinar os reis não teria aparecido” [2]. Os simpatizantes do jacobinismo à brasileira ainda acreditavam no estado.

A outra opção que aparece no cenário seria o Positivismo influenciado por Comte. Esta forma de governo encontrou seu maior defensor em Benjamin Constant. Também conseguiu absorver a parcela da classe média e operária desiludida com a impossibilidade de um jacobinismo. Prometia a incorporação do proletário e o fim das desigualdades. Sua receita para conseguir esta façanha era a implantação de uma ditadura republicana, na qual o executivo suplantaria o legislativo e o judiciário, os quais seriam seus instrumentos no caminho da sociedade metafísica representada pela monarquia para a positiva. Uma parcela significativa dos militares era adepta desta vertente.

A origem da república, assim como sua consolidação será disputada por vários grupos após 15 de novembro. Os militares com Deodoro da Fonseca, os positivistas com Benjamin Constant e os Liberais com Quitino Bocaiúva. Um fato preponderante é que a república brasileira irá herdar um grave problema do império: A formação de uma identidade nacional que funcionasse como uma liga para a república. As conseqüências desta falta de identidade eram notórias, decorrentes da abolição da escravidão e a posterior incapacidade do estado em incorporar o negro à sociedade. Como se formar uma identidade nacional se a maior parcela da sociedade sofria de exclusão? O Brasil, o segundo maior país negro do mundo, mais de um século depois da abolição ainda não consegue findar com a exclusão social da maior parcela da sociedade, assim como não o fez a monarquia e muito menos o governo que se instaurou em 1889.



[1] CARVALHO, José Murilo. A Formação das Almas: o imaginário da república do Brasil, São Paulo, Companhia das Letras, 1990. p 24.

[2] Idem, p 26.

Canudos Destruído em Nome da República: Uma reflexão sobre as causas políticas do massacre de 1897
Jacqueline Hermann*

A história da guerra ou do movimento de Canudos tem sido incansavelmente contada ao longo dos últimos cem anos. Analisada em várias de suas possíveis dimensões, este episódio ensejou diversas interpretações e marcou tragicamente o processo de transição política que deu origem ao regime republicano brasileiro. A busca de explicações para a necessidade do extermínio de uma população que chegou a se estimar em 25.000 sertanejos miseráveis e mal armados produziu inúmeros trabalhos, dos quais, certamente, o clássico de Euclides da Cunha foi o que mais contribuiu para que a saga conselheirista fosse conhecida e discutida dentro e fora do Brasil.
Considerado um livro definitivo no processo de formação do pensamento socológico brasileiro, Os sertões, mais que construir uma história que acabaria se tornando uma espécie de matriz referencial para a interpretação do sentido de Canudos, manteve-se como um testemunho privilegiado dos questionamentos que dominaram os debates intelectuais no final do século passado. Ao refletir sobre uma guerra fratricida que opunha o litoral do país __ considerado avançado e civilizado __ ao interior de um Brasil que ainda conservava uma parte significativa de seu povo mergulhado no mais profundo atraso, Euclides da Cunha expôs de forma contundente uma fratura quase irremediável para o projeto nacional pensado pelos intelectuais que aderiram e defenderam com afinco a causa republicana.
Dividido entre a compaixão e a reprovação, embora este último aspecto tenha dado o tom de sua análise sobre Antônio Conselheiro, Os sertões foi obra que imortalizou e vulgarizou boa parte das discussões que permeavam os principais centros da intelectualidade brasileira na passagem do século XIX para o XX. Vale lembrar a marca indiscutível das teorias do médico baiano Raimundo Nina Rodrigues na determinação da “doença grave” do líder sertanejo, “documento raro de atavismo”, nas palavras de Euclides da Cunha, considerado por alguns especialistas como um dos mais fiéis discípulos do autor de A loucura epidêmica de Canudos.
Herdeiros de um conjunto de teorias que se estruturavam na Europa e que gradativamente, desde a primeira metade do século XIX, caminhavam para a reprovação social, cultural e moral dos grupamentos humanos oriundos da mistura de raças, Nina Rodrigues e Euclides da Cunha tiveram no impressionante caso dos sertanejos de Canudos um laboratório privilegiado para o teste “definitivo” do efeito deletério e nefasto provocado pela miscigenação de que resultara esta espécie considerada então racialmente incompleta __ o sertanejo.
Se a busca de explicações “científicas” deu ensejo a elaborações que deixaram Canudos “sitiado pela razão”, do ponto de vista político, e no calor dos acontecimentos, a ousadia sertaneja chegou ao seu ápice com a morte do coronel Moreira César, líder da terceira expedição ao arraial e a primeira que incluía forças e comando federais, em março de 1897.
Mas, indo além do evidente peso desse episódio para o desenrolar dos acontecimentos que levaram ao extermínio definitivo dos conselheiristas, uma observação mais atenta das lutas políticas que marcaram esse momento delicado da recém-inaugurada República pode desvendar um conjunto de questões que jamais tiveram na resistência sertaneja seu foco privilegiado de tensão. Refiro-me, especificamente, ao tortuoso quadro político que marcou a passagem da liderança militar para o grupo político que, tendo à frente os cafeicultores paulistas, deu início ao primeiro governo civil do novo regime, em 1894.
Na verdade, este momento só tornava ainda mais explícitas as disputas em torno da legitimidade da liderança militar que proclamara a República, alvo de acirradas e continuadas críticas desde o primeiro momento da constituição do governo de Deodoro da Fonseca. A ação militar da proclamação e a falta de um reconhecimento mais amplo da legitimidade desse grupo político, além das dissenções internas do próprio Exército, tornaram extremamente frágil a adoção de um governo militar para a República brasileira. Se na luta contra a monarquia e todos os seus pressupostos o conjunto dos republicanos parecia unido, depois da proclamação o embate entre diferentes projetos políticos e institucionais opôs de forma definitiva pelo menos dois grandes grupos: militares e civis.
Quando Moreira César foi morto no sertão baiano, o primeiro governo civil e paulista da república, encabeçado por Prudente de Morais, já estava no seu terceiro ano. Nesse período, a oposição política do grupo militar que deixara o poder só fizera crescer e encontrara agora, na morte de um de seus mais ilustres representantes, um fortíssimo argumento para questionar a legitimidade dos verdadeiros princípios de um governo que não conseguia proteger suas instituições contra os defensores da restauração monárquica, forma como passaram a ser identificados os conselheiristas.

*  Doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense, UFF. Professora visitante de História
Moderna e Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ.

As construções republicanas

Por Luiz Felipe


República. Será que tal conceito carrega em seu bojo significados e princípios que independem da construção humana? Poderíamos compará-la a um programa, ou aplicativo informático que basta baixá-lo em qualquer máquina para ela surtir efeitos iguais? O estudo aprofundado da república na História poderá esclarecer melhor esses questionamentos. Veremos que apesar dela carregar princípios fundantes, esses nem sempre foram aceitos passivamente pelos sujeitos históricos, que moldaram esse projeto político de acordo com as diversas concepções ideológicas das diferentes culturas políticas. Portanto, podemos canalizar tais questionamentos para um momento peculiar da história brasileira: A Proclamação da República. Partindo desses questionamentos podemos formular algumas perguntas: que projeto republicano se queria implantar no Brasil? Qual seu conteúdo? Quais são os anseios e motivos para a efetivação de tal projeto político? Houve uma construção nacional, ou seja, uma construção comum do povo brasileiro para tal projeto?
O título do segundo capítulo - As proclamações da república - do livro "A formação das almas" do historiador José Murilo de Carvalho sintetiza este momento histórico brasileiro. A argumentação central desse autor está no fato da existência de uma batalha entre os diferentes projetos republicanos existentes naquele tempo. Como se vê, não existiu uma construção nacional da república. Tal disputa teve ressonância na luta sobre a construção de uma versão oficial sobre o acontecimento. Os diversos projetos tinham como símbolos, personagens que tiveram alguma relevância para o movimento da proclamação. Murilo de Carvalho cita Deodoro da Fonseca, Benjamin Constant e Quintino Bocaiúva e seus respectivos partidários. Atrás da luta sobre quem foi mais importante no movimento está embutido os sentidos que cada ala dava para a república, representado pelo garoto propaganda do partido. Isto demonstra que a república, ou melhor, as repúblicas são de certo modo fruto das relações que são tecidas a partir de um determinado grupo social e portanto não sendo algo formado externamente ao homem. Para deixar o debate recheado passemos a sintetizar o que cada ala formulava sobre a construção republicana.
Para os deodoristas, a república era um mero instrumento para a ascensão política do Exército. Esta ala não tinha uma concepção formada sobre este modelo político. Era simplesmente a resolução da questão militar, segundo Murilo de Carvalho. Então, concluímos que este anseio não se estendia ao público - ou à coisa pública, res publica - mas estava restrito aos anseios militares. Por isso, o já citado historiador vai chamá-la de a República Militar, uma certa contradição entre termos.
Os partidários de Benjamin Constant fundamentam a república em certos princípios positivistas. Para eles, a instauração da república na sociedade brasileira manifesta a evolução desta, segundo a ideologia positivista. Portanto, viam uma república de caráter sociocrático. Isto quer dizer, que a república seria liderada e conduzida por um ditador que seria o responsável por conduzir a evolução brasileira ao estágio final e desejado de uma sociedade, segundo os preceitos positivistas. Havia, de certa medida, uma preocupação sobre a coisa pública, mas não a participação efetiva do público. Em um artigo publicado no site da Revista de História da Biblioteca Nacional (RHBN), intitulado "Todos falam, poucos vêem", Vivi Fernandes de Lima, ao entrevistar uma senhora que tinha saudades do tempo do governo de Getúlio Vargas - uma vez que este está inserido naqueles que defendem uma república sociocrática - afirma: " E é aí que mora um dos equívocos provocados pelo tema: a imagem de um estadista associada à República."  (www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/todos-falam-poucos-veem). Seria, portanto, uma personificação da república.
Os que são a favor do projeto republicano idealizado por Quintino Bocaiúva tem uma visão totalmente oposta sobre a república dos partidários de Constant. Estes eram civis que já estavam engajados na luta republicana, remontanto a 1870, quando este personagem publicou o Manifesto do Partido Republicano. A idéia desse modelo político que estavam imbuídos, era aquela que presava uma democracia representativa, aos moldes norte americanos. Porém, não devemos esquecer que dentro desse partido havia inúmeras divisões sobre qual seria o meio que se instituiria a república. Entre eles estavam os militaristas - dentre eles o Quintino Bocaiúva -, evolucionistas, revolucionistas e etc.
Esta disputa ocorrida em um momento em que a vida política do Brasil estava se redefinindo, nos leva a refletir sobre a construção da república no Brasil hoje. Em que ela se baseia? E podemos ir mais além, nos questionando sobre quais são as construções republicanas que ocorrem no mundo. Lendo, recentemente uma reportagem no site da BBC Brasil sobre a fase de eleições na Venezuela, onde a permanência da ditadura chavista está de certa medida comprometida por causa da batalha contra um câncer enfrentada pelo ditador Cháves, achei uma afirmação desse governante muito interessante para o assunto aqui exposto. Diz : "Nós somos a garantia de paz e estabilidade para nosso povo (...)criamos as bases sólidas da República e temos uma Venezuela estabilizada no político, social e militar."(http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/03/120317_chavez_volta_venezuela_cj.shtml)Seria uma um permanência de uma certa república sociocrática?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: o imaginário da república do Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 1990;
CASALECCHI, José Ênio. A Proclamação da República. Coleção Tudo é História, ed. Brasiliense, 1981.


A representatividade política no Brasil


                                                                                        Bruno Vitor

- E então, já sabe em quem vai votar?
- Tô decidindo ainda. Um candidato lá do bairro até já falou comigo, mas ainda não sei.
- Eu vou votar em Fulano. Uma vez a gente passou um aperto lá em casa e ele arrumou uma cesta básica...

       Em boa parte dos casos, esse diálogo ilustra o processo de decisão política do brasileiro. Isso nos remete a questões bem pertinentes sobre a nossa cultura política. Primeiro, a questão da própria representatividade política em nosso sistema eleitoral e segundo, a personificação de ideias e valores em determinadas figuras desse meio.
       Quando José Murilo de Carvalho cita Benjamin Constant na obra A formação das Almas, fala da forma moderna de fazer política, ou seja, a representação direta não tem mais espaço, uma vez que o cidadão não tem mais tempo e/ou interesse em se dedicar a tais assuntos, tal qual os gregos faziam em praça pública. Diante disso, se conclui que o cidadão está mais interessado em buscar sua satisfação pessoal que em envolver-se com as decisões políticas diretamente. Há uma espécie de terceirização: é eleito um representante que será pago para tomar decisões e cuidar “desses assuntos”. Vem à tona a crítica feita por J. J. Rousseau, que diz em O contrato Social que os ingleses se iludem ao pensar que participam das decisões políticas de seu país, pois apenas decidem durante as eleições, tendo depois que se sujeitar ao que decidirem os eleitos.   
        Ora, escolher os representantes faz parte do processo político. Pode parecer ingênuo pensar que outrem representará plenamente nossas vontades e atenderá a todas as nossas necessidades, mas a lógica do processo é bem essa mesmo. Aquele representante que mais se aproximar das qualificações exigidas pelo cidadão que o elege será a sua escolha. Isso nos remete ao segundo ponto: como se escolher um representante?
        Como sugerido no pequeno diálogo no começo do texto, e corroborado por Constant, essa escolha acaba sendo muito pessoal. No processo decisório levam-se em consideração tanto as ações de um determinado candidato a representante quanto a imagem que se tem deste.
       O voto acaba se tornando uma moeda de troca: aquele a quem se deve mais é o que recebe. Esse ponto de vista acaba dando margem a uma série de arbitrariedades, não só porque nem sempre um determinado interesse é o de todos, mas também pela possibilidade de compra de votos e outras formas de chantagens.
       Outro fator que influencia na escolha de um representante é a imagem que se tem dele. Rodrigo Patto toca no tema ao falar do papel das representações na cultura política: a idéia que se tem de um representante, quais interesses ele representa e até mesmo quais os sentimentos que se tem com relação aquela pessoa.  
     Chegamos então a um ponto chave dessa discussão: como associar o modelo de representação indireta com a falta de interesse (ou interesses deturpados) do cidadão eleitor? Sim, porque se os representantes são eleitos por pessoas desinteressadas pela dinâmica desse processo, temos um grave problema, talvez o grande problema da política brasileira.
       Despertar o interesse pela política é crucial, afinal, é assim que se definem os rumos do país e consequentemente das nossas vidas. Criar uma consciência política é a estratégia mais eficaz contra qualquer tipo de fraude ou desmando dos nossos representantes. A partir do momento que passarmos a vê-los como nossos funcionários, o que de fato são, pensaremos duas vezes antes de empregar qualquer um. Não se trata de eleger ex-palhaços ou torneiros mecânicos, a discussão vai muito além. Tratas-se de utilizar critérios mais objetivos nas decisões e pensar com mais cuidado no bem da coletividade. E, uma vez eleito o representante, acompanhar com cuidado se está fazendo bem o trabalho que lhe foi delegado, e, caso contrário, mandá-lo para o olho da rua.        


CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: o imaginário da república do Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 1990.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato Social. Porto Alegre, L&PM. 2009.

SÁ MOTTA, Rodrigo Patto. Culturas Políticas na História: Novos Estudos. Belo Horizonte, 2009.